quarta-feira, 30 de maio de 2012

Resenha - Jogo de Cena


O Teatro Glauce Rocha é o palco para “Jogo de Cena”, de 2007. Trata-se de um documentário de Eduardo Coutinho sobre histórias de mulheres unidas pelos dramas da vida, que mistura realidade e interpretações de atrizes como Marília Pera, Fernanda Torres e Andréa Beltrão. Essa mistura de realidade e interpretação é a brincadeira proposta pelo diretor – ela acontece no palco, regada a lágrimas, risos e vozes embargadas. E tudo isso começou com um anúncio no jornal – a produção do filme solicitou mulheres que tivessem uma história sobre si mesma para contar em frente às câmeras. O resultado foram 83 respostas, das quais 23 foram selecionadas. 

“Jogo de Cena” não apenas traz atrizes de alto nível, mas desafios completamente diferentes para todas elas e também para o espectador que tenta decifrar o que é relato e o que é interpretação. Ao mesclar participações de ícones consagrados com atrizes desconhecidas, acostumadas com papéis de pouco destaque, Coutinho acaba por fazer esta obra ainda mais intrigante. Mas reconhecer quem está contando sua própria história e quem está interpretando não é a proposta central deste documentário.

A emoção está presente em cada personagem e o drama é o vínculo entre cada uma das mulheres, sejam elas atrizes ou não. Alguns fatos em comum são o nascimento ou a perda de um filho, o conflito entre familiares e a relação com a religião. São relatos banais que se destacam por suas singularidades e pelos recursos usados nas representações. 

É normal sentir-se enganado no decorrer da obra. “Jogo de Cena” tem justamente o objetivo de trair seu público, de emocioná-lo com a mesma história mais de uma vez. E não é necessário haver lágrimas para causar comoção ou acrescentar dramaticidade ao relato. Marília Pera diz que “esconder a lágrima durante o choro dá mais sinceridade ao sentimento”. 

Eduardo Coutinho é um dos mais competentes nomes do gênero documentário no Brasil. O cineasta é conhecido por sua sensibilidade ao abordar a realidade brasileira, do povo brasileiro, de maneira profunda e humanizada. Sua carreira no cinema começa com a ficção, na qual firmou parcerias com Leon Hirzsman, Eduardo Escorel, Bruno Barreto e Zelito Viana. Coutinho ainda trabalhou como redator, editor e diretor de médias-metragens para o Globo Repórter, onde permaneceu até 1984, realizando documentários rodados em 16 mm, sempre com liberdade editorial, algo surpreendente para uma época em que a ditadura militar no Brasil dava seus últimos suspiros. Ainda em 1984, Coutinho criou uma de suas mais importantes obras, “Cabra Marcado para Morrer”, que narra a história de um líder camponês da Paraíba assassinado em 1962. Este semidocumentário lhe rendeu 12 prêmios, entre eles um Fipresci no Festival de Berlim em 1985. 

“Jogo de Cena” foi o penúltimo filme lançado com autoria de Eduardo Coutinho. Seu último documentário, de 2009, é “Moscou”, uma espécie de continuação para “Jogo de Cena”. No Internet Movie Database (IMDB), “Jogo de Cena” recebeu nota 8.8 numa escala de dez e comentários elogiosos dos usuários. O sucesso deste documentário reafirma o talento de Coutinho, que conseguiu transmitir emoção e realismo através da linha tênue que separa o relato da interpretação.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Quanto custa a sua fé?

Na sessão do descarrego, fiéis acreditam na cura através da aliança com Deus, mas ela tem um preço: 10% daquilo que receberem

Uma lenta canção instrumental acolhe os fiéis que aos poucos começam a formar um modesto público pelos 1.400 assentos do amplo e luminoso edifício. Pessoas de todos os tipos começam a chegar: elas são magras, gordas, altas, baixas, de pele clara e escura, de diferentes classes sociais e algumas acompanhadas de crianças pequenas. Um evento muito peculiar está para começar. E cada um está ali por um único motivo: livrar-se de todos os males que possam afligir suas vidas.

No altar, alguns vasos com vinho e o óleo que representa o Espírito Santo chamam a atenção. O óleo, que tem um cheiro um pouco desagradável, é uma espécie de “condutor” para a cura – ele é passado nas palmas das mãos, que são levadas à cabeça ou à parte do corpo que está doente. Atrás do púlpito, a fotografia de uma paisagem que compõe a decoração tem um significado: pedras e plantas verdes envolvem a água que cai em cascata – a água representa o batismo. O púlpito é comum, de madeira, com uma cruz talhada na parte da frente. É neste local que o Pastor Edson Nascimento dos Prazeres, 46 anos, passa a maior parte do tempo lendo os dizeres da Bíblia, ou transmitindo suas ideias, suas crenças. Assim que ele sobe ao altar, todos se levantam.

– Diga “graças a Deus”. Bote a mão no coração, que nós vamos falar com Ele. – Diz o Pastor, que logo dá início à primeira canção de louvor de maneira desafinada, com ajuda do tecladista: “Seguuura na mão de Deeeus... e vaaai.”

A moeda da fé

Terminada a canção de louvor, o pastor Edson começa a falar de dinheiro, como numa aula de matemática financeira (os sermões parecem ser decorados como um texto, um roteiro, pois pouco se diferenciam conforme a cerimônia):

– Uma das coisas que baseiam nossa fidelidade com Deus é o dízimo. Independentemente de quanto você receber, 10% deve ser devolvido a Jesus. Se você ganha R$ 10 mil, R$ mil é de Jesus, se você ganha R$ 500, R$ 50 é de Jesus. – O dízimo é coletado em envelopes. O fiel ainda pode fazer uma oferta de quanto quiser. É através da oferta que ele pode reafirmar sua aliança com Deus.

A servente escolar Nereusa Borges, 48, diz que os pastores da Congregação Cristã no Brasil ensinam que só se deve dar o dízimo se sentir-se à vontade. “Eu acredito fielmente no que o pastor prega porque tudo o que ele diz está na Bíblia e nossa igreja segue somente a palavra Deus, aí não tem como duvidar”, diz Nereusa. Assim como a servente escolar, muitos creem em pastores como Edson, que afirmam: “para ser feliz, sacrifícios são necessários”. E Edson sabe bem o que é isso. Antes de pregar na Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Edson era alcoólatra, como o pai: “Meu pai morreu na cachaça, usava lança-perfume, vivia nas drogas”. De acordo com ele, a igreja é a salvação, a cura para doenças do corpo, da mente e da alma, como o câncer, a depressão, as visões e até mesmo a AIDS. 

Começa, então, a oração pelos dizimistas. “Que Deus possa fazer coisas maravilhosas pelos dizimistas de Itajaí”, diz Edson. Para ele, Deus é alguém muito rico, contudo, não se deve pensar que para seguir à palavra, o fiel deve abrir mão de ter posses, bens materiais.

– Essa história de que Jesus foi simples, humilde, de que a pessoa tem que viver e não pode ter riquezas, não pode adquirir bens, isso é história para boi dormir. Aliás, nem boi está dormindo mais com essa história. – Edson eleva o tom da voz e pergunta aos fiéis:

– Deus quer que você tenha uma vida abençoada. Amém? Ele quer que você ande rasgado? Que você viva mal? Venha a se alimentar mal? Se vista mal? Não, Ele quer que você tenha o melhor, por isso está escrito: “Comereis o melhor desta terra e vos fartareis”. Então, se você quer comer desta terra, venha fazer uma parceria com Deus, venha tornar-se dizimista.

Edson diz que o aluguel pago pelo local onde acontecem as cerimônias, que fica na rua Heitor Liberato (popularmente conhecida como rua Silva) em Itajaí, é de R$17 mil, mas esse valor não sai do bolso dos fiéis, pois não é possível arrecadar tanto. No entanto, não importa a posição financeira dos frequentadores – a maioria confia na palavra do pastor e não hesita em contribuir, embora muitos sequer saibam o que é feito posteriormente com o dinheiro. Jaqueline Boaventura Delfim, 26, é fiel da Assembleia de Deus e há oito anos deposita todo mês R$ 140 nos cofres da igreja. Apesar de não saber o que é feito com o dízimo, a zeladora não se arrepende: “Eu não sei para onde vai esse dinheiro, só penso que Deus está vendo: minha parte eu faço.”

O descarrego

“É hora de exterminar todos os males da família: doenças, drogas, amantes, brigas e o cigarro, que é a chupeta do diabo...”, diz o pastor Edson, dando início à parte principal da cerimônia: a sessão do descarrego. Todos se aproximam do altar e o óleo malcheiroso, símbolo do Espírito Santo, é passado nas mãos de cada um. O pastor ordena: “bote suas mãos no local da enfermidade, ou então na cabeça”. Como num ritual de exorcismo, dois pastores se aproximam e começam a expulsar os supostos demônios dos fiéis, apoiando a mão em suas cabeças e orando em um tom de voz quase ensurdecedor.

As orações são incompreensíveis. Apesar da voz exaltada e do auxílio do microfone, é difícil entender o que é dito. E embora a reza seja indecifrável, todos, inclusive as crianças, se emocionam, choram. Como numa dança, pernas inquietas embalam o corpo de um lado para o outro, até que tudo fica em silêncio novamente. Os fiéis se mostram cansados, tristes. De repente, um homem de aproximadamente 60 anos chama Edson, que pergunta:

– Qual era o local da dor? Está se sentindo bem agora, não está? – O homem responde, mas o pastor se esquece de levar o microfone à sua boca.

– O braço estava doendo – diz o homem, que havia carregado materiais pesados durante o dia. Não satisfeito com apenas uma resposta, ou com um simples braço, Edson pede mais um depoimento, mas ninguém responde. O descarrego parece não ter funcionado muito bem. Com um olhar desapontado, de pálpebras semiabertas, o pastor encerra com uma oração, uma canção de louvor, e oferece mais uma vez o envelope do dízimo, envelope este que carrega o preço da fé.


domingo, 28 de novembro de 2010

Das ruas para os lares

Animais transmitem doenças e causam acidentes no trânsito. Só a adoção consciente pode acabar com o problema do abandono no litoral catarinense

Eu chamo sua atenção – brinco, rolo, faço barulho, na esperança de que você me note, seja nas ruas, numa caixa de papelão ou numa feira de adoção. Sou vira-latas, tenho um cérebro pequeno, ajo por instinto, mas meu coração sente quando sou maltratado. Tudo o que peço é um lar, comida e um pouco de companhia – não quero luxo, nem lixo. Não sei o que é pet-shop, nunca tomei banho, não fui vacinado, nem mesmo castrado. Fui levado, quando ainda era amamentado, para servir de presente de aniversário infantil. O garoto até ficou feliz no começo, mas depois percebeu que faço xixi, cocô, que não gosto que puxem minhas orelhas e meu rabo. Então um poodle chamado Scooby tomou meu lugar e eu fui parar num terreno baldio, onde aprendi a me virar. Já morei em casa com piscina, em barraco de favela. De repente, nem sei mais onde moro ou como me chamo: Totó, Rex, Billy...  Só sei que existem muitos como eu pelo mundo a fora – eu sou um animal abandonado.

Uma pesquisa realizada em 12 abrigos de animais nos Estados Unidos revelou as principais causas de abandono de animais: 18,5% dos 1984 cães e 37,7% dos 1.286 gatos foram parar nos abrigos por sujarem a casa. O estudo, publicado na revista veterinária "Journal of Applied Animal Welfare Science" ainda mostrou que a maioria das causas de abandono está relacionada com comportamento destrutivo do animal e por ele exigir atenção demasiada. Os motivos são banais, mas o ato é considerado crime de maus tratos e o infrator pode ser punido com detenção de três meses a um ano. Abandonar um animal, segundo a Declaração Universal dos Direitos dos Animais, é um ato de crueldade.

Ieda Passos, coordenadora do Núcleo de Controle de Zoonoses de Itajaí, conta que muitos cães são abandonados quando ficam doentes. “É como se uma pessoa abandonasse um parente, só porque ficou doente.” A coordenadora conta que muitos ligam pedindo a remoção do animal quando entra no cio. “Quando veem que a cadela vai dar cria e não podem ficar com os filhotes, eles desistem do animal e ainda nos pedem para trazê-los ao canil.”

Vida de cão

Em Balneário Camboriú, a vida de cão não é nada fácil, principalmente se este for um vira-latas. Não é difícil esbarrar com animais de rua pela cidade. Eles estão por toda a parte, revirando o lixo ou procurando uma cadelinha no cio. Fato é que não há preocupação do governo municipal com relação a esse assunto.  A ONG Viva Bicho é a única responsável pelo recolhimento de animais abandonados. Mara Walter, voluntária da ONG, diz que “a cidade precisa resolver o problema do abandono. Para isso, insistimos na castração: é um procedimento simples, que resolve tudo. A câmara de vereadores aprovou 30 castrações gratuitas de machos por mês, mas ainda é pouco”. Mara conta que todos os animais adotados nas feiras da ONG recebem a castração gratuitamente, além de serem desverminados e vacinados.

Na Viva Bicho, os voluntários se dedicam a cuidar dos animais abandonados até que eles sejam adotados. Essa dedicação é mantida com contribuições, mas muita gente leva cães e gatos de rua para a ONG, quando poderiam levá-los para casa. Isso sobrecarrega a organização, que de acordo com Mara, precisa de lares provisórios para os animais.

O abandono prejudica toda uma população. Atualmente, essa é uma questão de saúde pública e segurança na maioria dos centros urbanos. Quando cães ou gatos são jogados nas ruas, eles passam a ser transmissores de doenças e podem provocar acidentes de trânsito. Em Balneário Camboriú, onde não há canil municipal ou controle de zoonoses, a situação se agrava: os animais são abandonados em qualquer lugar. Com isso, principalmente os cães, transitam livremente pela cidade e pela praia, onde depositam fezes e urina na calçada e na areia. As fezes de um animal podem transmitir diversas doenças às pessoas que eventualmente caminharem por esses lugares.

Zoonoses: um problema de terceiro mundo

Doenças transmitidas por cães a outros animais, inclusive ao homem, são chamadas zoonoses. A leptospirose é uma delas. Em caso de enchentes e alagamentos, cães também estão sujeitos a contrair a doença através do contato com a urina do rato. Após contrair, este animal depositará suas fezes e urinas, aumentando o risco de transmissão para seres humanos. Outra doença de fácil prevenção (vacina), ainda faz vítimas no Brasil – a raiva é causada por um vírus mortal, que afeta mamíferos em geral. 

Para controlar a proliferação dessas doenças, existe o Centro de Controle de Zoonoses. O veterinária Andréia Dietrich Porto, do Canil Municipal de Itajaí fala sobre a importância de haver um controle de zoonoses nos municípios: “os centros de zoonoses atuam juntamente com as secretarias de saúde, controlando e prevenindo a proliferação de doenças entre animais e seres humanos. Através desse controle, todos são beneficiados.”

Em Itajaí, a Secretaria Municipal de Saúde realiza um importante trabalho com o canil municipal e o Centro de Controle de Zoonoses: recolhem os animais abandonados e os separam em grupos (doentes, sadios, fêmeas, machos e filhotes). Depois, esses animais são tratados por veterinários e colocados para a adoção no próprio canil, ou são organizadas feiras de adoção. Ieda Passos, coordenadora do núcleo, avisa que para adotar, é preciso assinar um termo de responsabilidade, se comprometendo em cuidar do animal. Com isso, a preocupação é de que os animais adotados recebam um lar adequado e que os interessados tenham consciência de suas necessidades antes de levá-los para casa.
O Canil Municipal de Itajaí

No Canil Municipal de Itajaí, cerca de nove profissionais trabalham para retirar os animais das ruas e encaminhá-los para os lares. Dois veterinários cuidam da saúde, enquanto seis pessoas trabalham na limpeza. Segundo a coordenadora do núcleo de zoonoses, existem atualmente cerca de 300 animais e o número só cresce.

Este trabalho pode ser considerado um exemplo para cidades como Balneário Camboriú. O canil possui uma infra-estrutura simples, sem luxo, mas abriga confortavelmente os animais recolhidos das ruas. Ieda Passos conta que a maior parte dos cães e gatos abrigados no local é formada por vítimas de atropelamento, maus-tratos e abandono. “Recolhemos muitos bichos maltratados, mutilados (sem rabo, orelha), vítimas de queimadura com água fervente.” Ieda ainda ressalta que não há mais espaço, apesar do canil ser grande. 

O cachorro Pretão, como foi apelidado pelos funcionários do canil, foi vítima de atropelamento e recolhido. Após operar uma das pernas dianteiras, os veterinários constataram que será necessário amputá-la. Pretão sofre com a dor, levanta e abaixa a perna o tempo todo, na vontade de apoiá-la no chão. Agora, o vira-latas encontra mais um obstáculo: além de deficiente, Pretão é um jovem adulto, e dificilmente encontrará um lar.

Encontrada com a cabeça queimada, a gata vira-latas corta o coração de quem se aproxima. Ela foi vítima da crueldade de alguém, que se dispôs a ferver um bule de água e esperar o momento certo para acertá-la. Em uma das “gaiolas” reservadas para animais em recuperação, a gata observa a movimentação, com olhar desconfiado e ao mesmo tempo desolado, como se soubesse exatamente o tamanho da maldade que a levou até ali. 
 
A adoção consciente

Uma das principais causas de abandono é a adoção impulsiva. Muitos adotam por uma vontade momentânea, mas acabam se arrependendo. Para acabar com isso, a adoção consciente vem sendo defendida por protetores de animais, veterinários e canis municipais. A posse responsável é um conjunto de normas, que fazem a relação entre animal e dono mais saudável. Adotar com consciência nada mais é que ter conhecimento das próprias necessidades e as do animal. Por exemplo: um animal de grande porte não pode ser mantido em lugares pequenos. Se o dono mora em apartamento, ele deve saber que não pode ter um Dog Alemão ou um Rottweiler.  Proteger o animal também é regra: deve-se manter o cão dentro de casa. Mas isso não significa que ele deva ficar preso – o dono deve sempre levá-lo para passear, com coleira, guia, focinheira e saquinhos plásticos para recolher as fezes do animal.            

A mesma crueldade que maltrata um animal indefeso, leva ao abandono. O abandono leva, consequentemente, a acidentes, transmissão de doenças e à tristeza, depressão. Um cão que chora de saudades do dono é como uma criança que chora de saudades da mãe. Mas como cão não é gente, a comoção é rara ou hipócrita. Bicho não é gente nem objeto que se joga fora. Não se deve tratá-lo melhor do que uma pessoa, mas não se deve machucá-lo toda vez que ele latir à noite, ou fazer xixi onde não deve. Antes de adotar ou comprar um animal, deve-se ter consciência de que ele vai viver cerca de 20 anos, ficar doente, pedir carinho e comida. E se você achar que é muito, pense no que ele pode te dar, mesmo quando você não der nada a ele – ao chegares em casa e vir teu cão ficar feliz em te ver, saiba que isto se chama amor incondicional.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Janela da alma: a importância da imagem na sociedade contemporânea

Os olhos nos permitem uma visão imediata. A interpretação daquilo que se vê só é possível se usarmos nossa capacidade de imaginação. Como uma pessoa com deficiência visual que não possui a capacidade de ver imediatamente consegue enxergar além do óbvio e, algumas vezes, muito mais do que alguém com uma visão perfeita? A interpretação de um deficiente visual é o que lhe permite enxergar. Cada um vê o mundo com seus próprios olhos (diz-se “olhos” metaforicamente, já que o cego enxerga mesmo sem o sentido da visão) a partir daquilo que se permite sentir. E é esta a idéia que o filme “Janela da Alma” de João Jardim e Walter Carvalho propõe. 

O ato de identificar, analisar e interpretar imagens na sociedade contemporânea se tornou obsoleto. Antes da fotografia, do cinema e da televisão, os livros permitiam que a imaginação criasse as imagens. Hoje, com o mundo saturado de imagens estáticas e/ou em movimento, em cores vivas e atraentes ou em preto e branco, perdeu-se o sentido de imaginar o que nunca foi visto, ou o que não está explícito e imediato. A banalização da imagem criou um bloqueio na visão do homem contemporâneo e usar somente os olhos para observar se tornou uma das principais características da modernidade. "Eu pedi para Deus me deixar um tempo cego, cego aparente. Porque olhando é tanta coisa ruim que a gente vê, que atrapalha a visão certa, a visão das coisas que a gente quer fazer na vida". Diz Hermeto, um dos personagens do documentário. 

A imagem na sociedade contemporânea é fundamental, tão fundamental que nos tornamos inteiramente dependentes das imagens imediatas, prontas e auto-explicativas. José Saramago diz que nunca estivemos tão perto da alegoria da caverna de Platão: “somos bombardeados por imagens de todo tipo, sombras que cremos reais.”

terça-feira, 13 de abril de 2010

Resenha: Bully



Bully (Larry Clark, 2001) não é nenhuma obra prima, mas vale por seu argumento. A abordagem concentra-se no Bullying, como o próprio título indica, e sobretudo na impulsividade de jovens alienados. O filme tem seu início com duas amigas entrando em um supermercado, onde conhecem dois rapazes, que as convidam para uma tarde na praia. Os rapazes, Marty (Brad Renfro) e Bobby (Nick Stahl), são amigos de infância, mas possuem uma relação bastante conturbada. Marty é maltratado por Bobby, na maior parte do tempo, e sofre calado com agressões físicas e verbais. 

Depois de conhecerem Aly (Bijou Phillips), a "prostituta mirim", e Lisa (Rachel Miner), a garota estranha e introvertida, os jovens amigos embarcam numa viagem trágica e sem volta. A narrativa começa a ficar interessante quando Lisa faz uma proposta a Martin. A partir daí, novos personagens surgem na trama. Um deles é Donnie, interpretado Michael Pitt (Funny Games, Boardwalk Empire). São estes personagens que, numa tentativa de parar as agressões contra Martin, acabam em um beco sem saída, cercados pela violência, tendo de enfrentar consequências tão extremas quanto seus atos.

Este é um bom filme, pois contém elementos muito atrativos e recorrentes no cinema atual: juventude, erotismo, drogas e violência. Para quem já viu Kids, Bully está faz o mesmo estilo.
 
Ficha Técnica:
Título original:
Bully Gênero: Drama
Tempo de Duração:
100 minutos
Ano de Lançamento (EUA):
2001
Site Oficial:
www.bullythemovie.com

IMDB: www.imdb.pt/title/tt0242193
Estúdio:
Le Studio Canal+ / Muse Productions / Blacklist Films / Gravity Entertainment / Lions Gate Films Inc.
Distribuição:
Lions Gate Films Inc. / Mais Filmes
Direção: Larry Clark
Roteiro:
Zachary Long e Roger Pullis, baseado em livro de Jim Schutze
Produção: Chris Hanley, Don Murphy, Fernando Sulichin e David McKenna

Música: Eminem
 

Fotografia: Steve Gainer Desenho de Produção: Linda Button Direção de Arte: Laura Harper Figurino: Carleen Ileana Rosado Edição: Andrew Hafitz

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Democracia no Brasil: o mito da soberania popular

Durante o final do período militar (1964-1985), o Congresso Nacional elegia através do voto indireto, os governantes. Ao fim da ditadura, a Nova República veio com a presidência de José Sarney, até então vice-presidente que assume o governo em decorrência da morte de Tancredo Neves. Sob seu governo, promulgou-se a Constituição de 1988, que instituiu um Estado democrático e uma república presidencialista, confirmada posteriormente no plebiscito de 21 de abril de 1993.
A forma de governo brasileiro inspira-se no modelo norte-americano: uma federação que se divide por estados. Porém, a forma de legislação é unitária, ou seja, o poder concentra-se no mais alto patamar (Presidente da República, que atua como Chefe de Estado e de Governo), enquanto nos Estados Unidos, o poder não está concentrado na presidência, e sim, no legislativo.
Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa, democracia significa “governo do povo; soberania popular”. A partir desta definição, concluímos que o Brasil é uma República Federativa Democrática. Porém, não podemos esquecer que a democracia depende do funcionamento de outros setores sociais para dar certo. Em outras palavras, o princípio democrático caracteriza-se por sua estrutura pluridimensional: a democracia surge com o aprofundamento democrático das ordens política, econômica, social e cultural. Mais do que “soberania popular”, a democracia depende da participação popular na vida política do país. E participação é a palavra-chave para o desencadeamento desta análise. Em épocas de eleições, uma esmagadora minoria dos cidadãos brasileiros preocupa-se em acompanhar as propostas levantadas pelos candidatos. Com exceção dos cargos majoritários, as pessoas esquecem facilmente dos candidatos em que votaram. E pelos próximos quatro anos, reclamam dos governos, mas a história se repete novamente nas próximas eleições. Se não há participação popular na vida política de um país, de nada adianta cobrar um governo justo. E assim, um governo eleito por cidadãos desleixados, comete a cada quatro anos erros que serão repetidos por mais quatro anos, gerando uma bola de neve antidemocrática.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Enquete bizarra elege piores e melhores da música em 2008

O G1 publicou hoje o resultado de uma enquete feita com leitores que elegeram os melhores e os piores da música em 2008. O resutado dessa enquete é absolutamente bizarro. Veja:

Clique na imagem para ampliarPrimeiramente, quem são Victor e Léo? E esse tal de D'Black?
RBD foi o melhor da música em 2008? Eu achava que RBD fosse uma novela mexicana.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O cinema está na pré-história ou Peter Greenaway é moderninho demais?

Estava lendo uma entrevista com o Peter Greenaway feita por Philippe Barcinski para a revista Bravo no ano passado, na qual o cineasta fala coisas muito interessantes sobre o cinema. De acordo com ele, o cinema nunca foi cinema e sim, textos ilustrados. Greenaway diz que é besteira transformar literatura em filmes, que é perda de tempo, já que o cinema não é sobre textos, mas sobre imagens. O cineasta também aponta o cinema como um “entretenimento emburrecedor”, o qual segue sempre os mesmos padrões e gêneros. Concordo até certo ponto. Não entendo de técnica, mas tenho senso visual e sei reconhecer uma boa obra e boas imagens dentro de uma boa obra. No entanto reconheço a falta de qualidade visual nas produções cinematográficas. Ainda de acordo com o Greenway, a maioria dos cineastas, até mesmo os donos dos maiores clássicos, são muito mais contadores de histórias do que cineastas. Mas é burrice concordar que um filme dispense uma boa história. Acredito que um bom filme seja uma junção de boas imagens + bom roteiro. Se dependesse apenas de imagens, então teríamos empacado na era do cinema mudo.
Greenaway tem idéias interessantes, porém muito estúpidas. Ele diz que o cinema é antiquado, pelo fato de não haver interação. “Você senta num lugar escuro, mas o homem não é um animal noturno. Você olha em uma só direção, mas o mundo todo está a sua volta. Se você assiste a um longa numa sala de projeção, fica parado por duas horas, algo que não fazemos nem dormindo.” Nunca li besteira tão grande sobre o cinema. Como seria interagir com o cinema? Realidade virtual? Greenaway, você é um cara que está além do seu tempo. Parabéns! A tecnologia pode até revolucionar o cinema, mas e a democracia, como fica nessa história? O “verdadeiro cinema” que a tecnologia vai criar, segundo Greenaway, vai ser uma tragédia. O cinema vai se tornar algo descartável, sem significado e direcionado apenas aos grandes estúdios. Se bem que muita gente não vê o cinema como eu vejo. As pessoas não param para ver um filme como param para ver uma desgraça ser noticiada na televisão. Elas querem cada vez mais filmes tolos.
São tantas besteiras que eu vou me poupar neste último parágrafo, dizendo apenas que eu fico triste quando penso que num futuro próximo, as imagens serão substituídas pelas palavras. Talvez esse seja o início da involução humana. Pensando bem, já começamos nosso processo de involução com todo esse lance de estética e beleza. No futuro, o mundo vai ser dos bonitos e Deus ajude a quem nascer feio. Aí o cinema vai ser tipo um meio de propaganda interativa, com imagens, muitas imagens – a cores, de preferência, porque preto e branco é antiquado demais para o novo modelo de cinema que Peter Greenaway sonha ver no futuro. Não dá pra entender como pode um cineasta com um nível cultural de Peter Greenaway ter essa visão sobre o cinema. Definitivamente não entendo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Prefeitura de Balneário Camboriú e Governo Federal trabalham juntos na prevenção e no combate à AIDS

Palestras, prevenção, combate e tratamento são os pontos-chave do CTA em Balneário Camboriú
Por Sarah de Souza

O Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) desenvolve um trabalho crucial de combate à AIDS em Balneário Camboriú. Além da realização de testes e do aconselhamento individual e coletivo, o CTA possui projetos de prevenção envolvendo gestantes, universitários, trabalhadores, idosos e estudantes de escolas públicas e particulares. As verbas para manutenção das atividades realizadas são provenientes da Prefeitura de Balneário Camboriú e do Governo Federal. “Nossos recursos estão bem distribuídos e atendem dignamente às necessidades do nosso departamento”, afirma Jean Carlos Natividade, 28 anos, psicólogo e coordenador do núcleo de prevenção do CTA. 

São realizadas, anualmente, pelo menos três grandes campanhas com a população: no carnaval, no dia dos namorados e no dia 1º de dezembro são distribuídos preservativos e folhetos informativos nas ruas de Balneário Camboriú. Marianne Gaidarji, 20 anos, é acadêmica de Engenharia Ambiental e, através da abordagem no Dia Mundial de Combate à AIDS, descobriu que os exames de HIV são realizados gratuitamente. “É um absurdo dizer que o sistema de saúde da cidade está decadente. O atendimento aqui é de primeiro mundo. Duvido muito que eu seria tão bem atendida se estivesse realizando o exame pelo sistema de saúde privado”, elogia a estudante.

Quando um paciente é diagnosticado como soropositivo, o CTA realiza outras duas coletas em tempos diferentes para confirmar o resultado e, assim, dar o devido encaminhamento psicológico. Por meio do Centro Integrado de Solidariedade e Saúde (CISS), o portador tem acesso gratuito a médicos, psicólogos, assistentes sociais e medicamentos. “A reação mais comum é a óbvia não-aceitação do paciente. Há pouco tempo houve um caso extremo de uma mulher que após receber o resultado do exame ficou tão abalada que estava a ponto de cometer suicídio em nossas instalações. Foi preciso imobilizá-la e chamar o psicólogo. Estou aqui há seis meses, mas há profissionais aqui há 15 anos e eles nunca registraram nada parecido”, conta o coordenador do CTA.

Do dia 2 janeiro até o dia 2 de dezembro de 2008, o CTA atendeu a mais de 3 mil pessoas, sendo 63% mulheres e 37% homens. Cento e vinte um exames voltaram com resultado positivo em que 57% dos infectados são homens e 43% mulheres, sendo 25% gestantes. Antes do exame, todos devem participar de uma palestra, que é realizada pelos funcionários do CTA. Na palestra, são dadas orientações sobre como a AIDS é transmitida, o que fazer para identificar Doenças Sexualmente Transmissíveis e como preveni-las, além de outros tópicos como as conseqüências do vírus HIV e de outras DSTs. 

Em 1987, a Assembléia Mundial de Saúde, com o apoio da Organização das Nações Unidas (ONU) criou o Dia Mundial de Combate à AIDS. A data, 1º de dezembro, passou a ser implantada a partir de 1988 no Brasil, com o propósito de erradicar o preconceito, dar apoio aos portadores do vírus HIV e incentivar a prevenção e o tratamento. 

Técnicos da Secretaria Estadual de Saúde, com a participação da comunidade gay de São Paulo, criaram o primeiro programa oficial de combate ao HIV em 1986: o Programa Nacional de AIDS. Na mesma década, organizações não governamentais como o Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS (GAPA) e a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA) surgiram para enfrentar a epidemia que se alastrava no país. Além das campanhas incentivando a prevenção, essas ONGs desenvolveram projetos de combate ao preconceito e à discriminação.

Nos anos 80, 50% dos pacientes com AIDS morriam em cerca de cinco meses após o diagnóstico. A partir de 1989, a ciência médica progrediu com a descoberta da zidovudina, aprovada pela Agência Reguladora de Medicamentos e Alimentos Estadunidense (AZT). O medicamento foi eficaz inicialmente, mas não aumentou o tempo de sobrevida dos pacientes. Posteriormente, novas drogas foram descobertas. Essas drogas, associadas à AZT, aumentavam o tempo de sobrevida – eram os medicamentos anti-retrovirais, popularmente conhecidos como “coquetel”. A distribuição gratuita desses medicamentos foi garantida pela Lei Federal Nº 9.313, decretada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso em 13 de novembro de 1996.

Um estudo divulgado recentemente pela revista PLOS Medicine revelou que a compra de medicamentos de laboratórios multinacionais e a produção local representaram para o Brasil uma economia de aproximadamente US$ 1 bilhão. Especialistas da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard alertaram que, nos próximos anos, o custo dos medicamentos contra a AIDS irá aumentar. Neste ano, a UNICEF elogiou a iniciativa brasileira no combate à AIDS e o apoio dado a outros países em desenvolvimento como Bolívia, Cabo-Verde, Guiné Bissau, Nicarágua, Paraguai e Timor Leste, mas ressaltou que a possibilidade de ver uma geração livre da AIDS no mundo ainda está distante.

O exame para diagnóstico de HIV e Sífilis pode ser realizado gratuitamente em dois horários: às 8h e às 13h30min no CTA. Antes do exame, todas as pessoas participam de uma orientação coletiva de aproximadamente meia hora. É necessário comparecer com antecedência para retirada de senha, acompanhado de documento com foto. Não é necessário estar em jejum.